
Eu tava cheia de coragem
Coragem de um bicho bruto
Aí pisei num galho que acordou as pessoas
E a coragem foi passando
Foi passando
Até que passou
Mas a maldita dor não passa
Então de coragem me enchi de novo
Tirei a faca da boca e a empunhei com todo vigor
Tirei o pouco de água que tinha no rosto
E só com o olho fiz todos os cachorros uivarem em ré
Olhei para o que vinha e para o que já tinha ido
Falei
Mansamente
E depois todos se foram
Só a dor não vai
E eu que tava entre o ficar e sair
Fiquei por falta de destino
E o destino só pra me desafiar
Fez você voltar pra me ouvir
A faca que não usei deixei no chão
E quando enfim você falou seu bordão
Senti a dor sair
Mas como diria minha senhora
Teu bordão floreceu
Cresceu em forma de flor
Fez sombra naquela terra seca
Fez sombra naquela gente
Que veio ouvir mais uma vez
E quando grande ela ficou
Grande como teus olhos em noites de sexta-feira
Tu se foi, sem mais regar o bordão que como o de arão, floreceu
E com teu agir
E sem teu falar
E com meu ser
A dor volta a latejar
Eu olho pra cima
E entre os flamejos do Sol posso ver
O que floreceu secar
Teu cheiro já não sente
Teus olhos já não vê
Tua boca já não beija
E sem ti não há como regar
Então o Sol tira água do meu rosto
(ou a dor que tem doído mais)
Ver teus passos levantarem poeira
Ver você dobrar a esquina
Então olho distante
Aceitando a minha sina
E a dor repentina
Começa a piorar
Tu não volta
Me deixa a esperar
Saiu sem nada prometer
Sem nada levar
Deixou comigo teu chapéu
E tua viola
A dor ainda lateja
O peito ainda dói
Não houve mas nem um dia de sombra
O Sol a terra corrói
Mas te sinto comigo deitar
No colchão velho
No chão quente
Na música das rodas
Eu posso te ver voltar
Como quem nunca se foi
E a dor assim, começa a passar
Porém, como nem tudo são rosas
E se fosse, elas nem falam
Eu saio da imaginação
Eu vejo o mundo real
E você não está na cama
E as músicas também não falam
Meu corpo se contorce, treme, quebra
E a dor não para
Nem a coragem pra falar
Nem o respeito em silêncio ficar
Nem o medo ao despertar
Nenhuma erva pode fazer passar
A dor de te ver partir
E ter que ficar