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segunda-feira, 16 de maio de 2011

A dor.


Eu tava cheia de coragem
Coragem de um bicho bruto
Aí pisei num galho que acordou as pessoas
E a coragem foi passando
Foi passando
Até que passou
Mas a maldita dor não passa

Então de coragem me enchi de novo
Tirei a faca da boca e a empunhei com todo vigor
Tirei o pouco de água que tinha no rosto
E só com o olho fiz todos os cachorros uivarem em ré
Olhei para o que vinha e para o que já tinha ido
Falei
Mansamente
E depois todos se foram
Só a dor não vai

E eu que tava entre o ficar e sair
Fiquei por falta de destino
E o destino só pra me desafiar
Fez você voltar pra me ouvir
A faca que não usei deixei no chão
E quando enfim você falou seu bordão
Senti a dor sair

Mas como diria minha senhora
Teu bordão floreceu
Cresceu em forma de flor
Fez sombra naquela terra seca
Fez sombra naquela gente
Que veio ouvir mais uma vez
E quando grande ela ficou
Grande como teus olhos em noites de sexta-feira
Tu se foi, sem mais regar o bordão que como o de arão, floreceu
E com teu agir
E sem teu falar
E com meu ser
A dor volta a latejar

Eu olho pra cima
E entre os flamejos do Sol posso ver
O que floreceu secar
Teu cheiro já não sente
Teus olhos já não vê
Tua boca já não beija
E sem ti não há como regar
Então o Sol tira água do meu rosto
(ou a dor que tem doído mais)
Ver teus passos levantarem poeira
Ver você dobrar a esquina
Então olho distante
Aceitando a minha sina
E a dor repentina
Começa a piorar

Tu não volta
Me deixa a esperar
Saiu sem nada prometer
Sem nada levar
Deixou comigo teu chapéu
E tua viola
A dor ainda lateja
O peito ainda dói
Não houve mas nem um dia de sombra
O Sol a terra corrói

Mas te sinto comigo deitar
No colchão velho
No chão quente
Na música das rodas
Eu posso te ver voltar
Como quem nunca se foi
E a dor assim, começa a passar
Porém, como nem tudo são rosas
E se fosse, elas nem falam
Eu saio da imaginação
Eu vejo o mundo real
E você não está na cama
E as músicas também não falam
Meu corpo se contorce, treme, quebra
E a dor não para

Nem a coragem pra falar
Nem o respeito em silêncio ficar
Nem o medo ao despertar
Nenhuma erva pode fazer passar
A dor de te ver partir
E ter que ficar


quinta-feira, 5 de maio de 2011

II



Confesso que hoje não há lugar em mim que já não queira um bom pecado. De certa forma eu acostumei a viver entre o mel e o fel e acho que isso seja bom. Até parece que perdi a noção do que é bom e do que me fere. E agora já não sei se sinto tudo ou se estou tão insensível como antes. É brincar com sagrado e profano. Não falo de um mal remediável, falo de algo que não tem mais solução. Como outrora diria, ele pôs um feitiço em mim. Agora os dias correm, as noites se prolongam e tudo o que passa pela minha cabeça é você. 

O que se encontra aqui é um desejo incontrolável. Não é algo que eu possa desfazer ou simplesmente contornar. Não dá pra enganar e não tem como desfazer. É algo que é guardado e inconfortável. É como preferir andar sobre espinhos. Tanto dó quanto aquece, e baby, eu amo esse calor.
Não há muito o que se dizer. Não há nada na Terra que explique essa minha paixão por querer dar mais do que tenho e ainda assim, me prender de todas as formas. Talvez, por que essa solidez que rege você me guia também, talvez por que eu tenha me apaixonado por teus erros, talvez por que de fato, somos só isso mesmo e nada além.
Então, vou deixando por um triz, o impossível necessário, por medo de não me acostumar com algo diferente. Vou pecando com os mesmos pecados. Me trancando com as mesmas chaves, esperando se você vai ver os tic-tacs do relógio soarem o código para me abrir. E às vezes proponho pra mim mesma"façamos diferente do passado" mesmo me vendo presa à algo que construirmos. Como uma bola e uma corrente que  pos se a mim em algo nunca imaginado. E nessa prisão eu me faço feliz. É pele sobre a pele pela tarde...

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Vestido Vermelho

Andou com vestido
Que a muito esperava por um novo
Vou sem destino
Mas nem sonhava em estar ali de novo
Sonhou com um filho
Que nem em sonho se passava por verdade
Criou quase um vício
E em muitos corações só viu maldade
E disse então
"não vou ficar aqui"
Piscou pro menino
Imaginando como seriam os novos dias
Virou a cabeça
E viu as luzes que queriam sua vida
Vestiu-se de vermelho
Sem amigos pra contar falsas verdades
Caiu sem ter medo
Como é que os novos dias serão fáceis
Sorriu enfim
No fim saiu dali.
Diego Rodrigues

terça-feira, 19 de abril de 2011

São três dias contando com hoje


Faz muito tempo que eu espero por isso, mas parece que o relógio ta meio lento como se tentasse atrasar meus planos. Nossa! Isso até que dar um certo prazer, ficar nessa angústia de esperar um Tic e logo depois um Tac. Pobre relógio... Mal sabe ele que nada vai poder fazer pra me impedir, porque meu dia ninguém toma, ninguém “tasca”, é só meu, minha vez. Quero aproveitar cada instante, cada segundo, em que ele não chega. Quero que seja uma eternidade esperar.

Vocês devem estar se perguntando o que farei de tão importante, não é? Não, jamais direi a ninguém! Não quero olhos sobre o meu dia. Nem me lembro ao certo. Talvez essa seja minha única certeza no momento.

Finalmente mais um. TIC! TAC! Depois de amanhã nem me procurem, não quero ser desagradável com ninguém e nem deixar que fiquem esperando na porta, vou estar o tão longe quanto eu puder. Minha casa, meus filhos, cachorro, vizinho e até mesmo você, por favor, não me chame.

Já foram dois, pelas minhas contas são só mais 259.198 Tics-Tacs pra hora H. Eu confesso que estou eufórico, nunca estive tão perto assim, minhas pernas tremem, meus cabelos vibram com a tensão que paira ao meu redor. Não se pode medir tal ansiedade. Pessoas comuns nunca entenderiam, por confiar em minha eminente vitória (é que deixo que me vejam assim). É um êxtase.

Não fique olhando o relógio, ele nada sabe e pelo jeito nem procura saber de nada. É só um relógio. Tolo e fraco achando que tudo gira ao seu redor, mas eu estou esperando minha vez. Quando eu terminar não restará ponteiro sobre ponteiro, engrenagem sobre engrenagem, tudo estará feito. Meu mundo será completo do inicio ao reinicio, do começo ao recomeço. Farei tudo de luz e superfícies artificiais. Terei meu próprio dia. Não terei que esperar por nada nem por ninguém. Sim, sim, eu serei eterno de todos os pontos de vida. Calcularei o “para sempre” logo que tiver a chance.

Loucura! Disse a mim mesmo inúmeras vezes. Doença, ilusão, indecência, murmurei desacreditado. Quase perdi as esperanças. Também meu olho não era fino como hoje e nem minha caneta riscava tão mágica como agora. Entendo-me perfeitamente, sem querer me gabar, mas, to nessa faz um bom tempo e já aprendi todos os caminhos possíveis. Não há nada capaz de me parar. Sou uma torre. Um cofre. Um cálice transbordando vida.

E essa hora hein... Vai passar não? O sol ta quase se pondo e ainda espero o terceiro. Deve haver algo errado com o tempo. Eu sei que há. Como se depois de tudo ele pudesse me enganar como fez com a laranja no mês passado. Mas a mim não. To vacinado e muito bem treinado Senhor, tenho tudo sobre controle.

A lua que aí se encontra é uma piada, as contas estão na minha cabeça e pretendo seguir meu plano a risca, nada de desespero. Pronto! Não disse, ai está mais um TIC-TAC. Chego a ter pena do tempo que acha que truques baratos vão me apavorar e me fazer correr feito louco. Eu vejo através de sua linha meu Senhor, como já disse antes afinei meu olhar pra quebrar seu elo. Cavei fundo pra encontrar tal pedra.

Droga! Essa agora foi muito boa. Jogar o Sol na minha cara foi quase que genial. Por um instante eu acreditei mesmo, mas to vestido com minha capa da sorte que me protege de luz falsa. Estou na minha fortaleza e muito bem equipado. Irei suportar firme até o fim. De você, não espero compreensão e muito menos compaixão, venha com seus melhores truques e com força total. Quebrarei um a um. Essa lua de novo. Truque velho, eu quero algo novo, que de pra sentir medo de verdade. TIC-TAC! Com esse agora meu senhor são só mais 259.197. Nem mais, nem menos. Será o fim.

Sem Canção


Você trabalha todo dia sem parar
Sem saber no que isso vai levar
E todo dia antes do sol nascer
Mal se levanta ainda vem me perguntar

Minha querida, o que fizeram com você
Faço o possível pra isso não continuar
E todo dia antes do sol brilhar
Mal se esqueceu ainda vem me perguntar

É que tiraram de mim um coração
E muito mais
E todo dia eu acordo só
Cheio de mim

Eu levo a vida que você não soube ter
E faço as coisas que você tentou fazer
E todo dia antes do sol se por
Mal se deitou ainda vem me perguntar

Olha os vestidos que compraram pra você
Larga esse vício vê se pára de sonhar
Pelo contrário nunca penso em desistir
Meu caminho eu sei que ainda vou trilhar

É que tiraram de mim uma canção
E nunca mais
Mandaram flores pra se declarar
São sempre assim.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Deixe só os bons motivos

Deixe só os bons motivos entrarem

Deixe toda tristeza lá fora

Esse é o dia que os meninos queriam

Hoje é perfeito, hoje vai ter brincadeira

Deixe tudo bem claro pra ela

Que sozinho você já não teme

Que já não cabe mais nenhum segredo

Que já não cabe mais sentir saudades

Hoje é o dia que os meninos queriam

Hoje é perfeito, hoje vai ter brincadeira

E não se esqueça de fechar a porta

Quando sair ou virar as costas

Olhe pra eles com a cara de sempre

Olhe nos olhos hoje, sempre e sempre

E não se esqueça de fechar os olhos

Quando dormir apagar a luz

Esse é o dia que os meninos queriam

Hoje é um dia mais feliz pra gente

Hoje é o dia que os meninos queriam

Hoje é perfeito, hoje vai ter brincadeira

E nunca entre na sua dança insana

Com melodias e palavras estranhas

Seu dicionário está bem sobre a mesa

Hoje a fraqueza não tem mais vontade

Hoje é o dia que os meninos queriam

sábado, 16 de abril de 2011

É só me lembrar


Versão Banda Hidra


Trago notícias de lá de outros campos
Correm boatos de ti sobre teus planos
Esses homens que caminham por lá

Trago comigo palavras de consolo
Só teu cinismo devora os homens tolos
Esses homens que caminham por lá

Só vim dizer
Que é só vaidade
Isso eu não tenho
É simples coragem
Por ti que me perco
Ainda que tarde
De ti que me lembro
Dos homens que falam
Disto eu esqueço
Mas é só me lembrar

Trago notícias de lá, campos desertos.
Correm boatos de ti
Só homens cegos
Esses pobres que navegam sem mar

Trago comigo palavras só palavras
Mesmo que seja um dia e mais nada
Falarão, pois não sabem mais voltar.


Diego Rodrigues, 2004.